Produtor: Paulo Tavares

Quantas formas, cores e texturas da floresta passam despercebidas aos olhos dos homens, na imensidão da Amazônia? Certamente, muitas. Mas ao olhar atento e eternamente curioso do ourives e pesquisador autodidata Paulo Tavares, os mistérios das árvores, galhos, folhas e frutos se revelam em um dos objetos mais sedutores já criados pelo homem: as joias.

A partir de técnicas inéditas de ourivesaria, Paulo juntou toda a experiência de anos de pesquisas e de trabalho na banca de ourives ao talento criativo de Mônica Matos para criar peças exclusivas, que retratam a fauna, a flora e toda a biodiversidade da floresta e da cultura amazônicas.

As gemas vegetais, uma criação de Paulo Tavares a partir de resinas naturais, se harmonizam com o brilho da prata e a textura das fibras naturais para formar uma coleção denominada “Digitais da Amazônia”. São peças que trazem para o mundo da joalheria as nervuras das folhas, o retorcido dos cipós e galhos, as múltiplas formas dos animais que habitam esse universo tão particular, como macacos, borboletas, peixes, serpentes e tartarugas.

O resultado desse trabalho levou dois anos e dois meses para ser concluído, incluindo o período de pesquisa, produção e confecção das 43 peças e das gemas vegetais de diversos pigmentos. Pingentes, colares, brincos e anéis mostram a beleza da matéria prima e também expressam o conceito de sustentabilidade, a principal característica do trabalho de Paulo e Mônica.

As peças refletem ainda o trabalho paralelo desenvolvido pelos dois artistas da joalheria, que inclui um projeto de geração de renda para comunidades do interior do Estado e o mapeamento e distribuição de mudas de Pau Brasil.

A árvore símbolo do país é uma das inspirações de algumas joias, como o anel “Seringa”, que se transforma em pingente (joia inspirada na forma da semente da Seringueira e composta com gema vegetal da resina do Pau Brasil) e o conjunto “Pau Brasil”, formado por pingente, colar e anel, reproduzindo a forma das lascas da palmeira, descartadas naturalmente pela natureza.

TÉCNICAS - Paulo Tavares explica que as gemas vegetais, criadas dentro de um projeto de pesquisa apoiado pelo Programa de Desenvolvimento do Setor de Gemas, Joias e Metais Preciosos do Pará, criado pelo Governo do Estado e gerenciado pelo Instituto de Gemas e Joias da Amazônia (Igama), resultam de um processo 100% natural de composição dos pigmentos, em que nada é desperdiçado, como, eventualmente, acontece em outros procedimentos.
 
“Nosso trabalho começa com zero resíduo e termina com zero resíduo”, frisa Paulo Tavares, acrescentando que, apesar de a aceitação do público ser muito positiva, a comercialização das gemas vegetais ainda não está ocorrendo em grande escala. Produtores do Polo Joalheiro estão começando a utilizar e vender peças feitas com as gemas sustentáveis.

O pigmento que dá cor a cada gema é extraído de cascas, flores, folhas, frutos e raízes descartados pela natureza ou pelo homem. A partir daí, o material é estabilizado na resina, na forma desejada. Segundo Paulo Tavares, as gemas vegetais têm três grandes vantagens: financeira, social e ambiental. Ele lembra que, além das formas e cores mostradas na coleção, já está produzindo gemas em outras formas, como camafeus e em formato de cabochão. E a lapidação facetada também já está sendo testada. 


O metal utilizado nas peças da coleção “Digitais da Amazônia” é a Prata 950, manipulada em duas técnicas de modelagem do metal: o cinzel e a fundição artesanal feita em terra, que estão sendo aperfeiçoadas pelos artistas.

Um exemplo de peça manipulada com a técnica do cinzel é o pingente “Folha”, cuja forma foi obtida por meio de pequenas batidas, feitas com um tipo de ponteira de madeira. As batidas dão forma ao metal, também utilizado nas peças “Macaco”, “Louva a Deus” e “Galho”.? 

No caso da fundição artesanal em terra é criado um molde a partir do formato a ser reproduzido, como um pedaço de graveto seco, que originou o anel “Galho”. “Posso encontrar formas belíssimas e únicas”, enfatiza o pesquisador.

DIGITAIS – Outra técnica utilizada na coleção, que inspirou o nome, também é uma criação de Paulo Tavares e Mônica Matos, vista na peça “Digitais”, um colar de fibra natural de miriti, tingido com pigmento extraído da casca do mogno, que carrega um pingente em prata, em forma de um pedaço de casca da árvore.

O processo, explica Mônica Matos, consiste em obter, por meio de uma espécie de carimbo preenchido com uma massa maleável especial, o registro em baixo relevo da forma selecionada, processo denominado como modelagem. O carimbo de um pedaço de casca de árvore cria uma impressão única, uma digital, que pode revelar no metal todos os detalhes. “Chamo isso de caça ao tesouro, pois ainda dá para encontrar outros desenhos, como rostos humanos e animais. Foi assim que surgiu também a ideia de trabalhar com comunidades carentes, de forma a gerar renda a partir da reprodução dessa técnica”, informa Tavares.

HISTÓRIA E INSPIRAÇÃO - Paulo e Mônica, que assinam juntos a primeira coleção de joias, participaram de todo o processo de pesquisa, produção e finalização de cada peça. A produtora Mônica Matos, responsável principalmente pelo design das peças, diz que encontrou inspiração na biodiversidade da Amazônia. A escolha de macacos, tartarugas ou araras como tema de algumas joias, entretanto, não foi proposital, destaca Mônica, que teve como objetivo chamar a atenção das pessoas para a preservação da floresta, para que não deixem extinguir espécies vegetais e animais e ajudem a preservar as que ainda não entraram em perigo de extinção. 

A preocupação com a natureza sempre esteve presente na vida de Paulo Tavares, que começou no ramo joalheiro como ourives, aos 16 anos, profissão que hoje é desenvolvida também por outros membros de sua família, para os quais repassou seu conhecimento, como os irmãos Antonio e João Tavares. O trabalho em joalheria é baseado, ainda, nas recordações da infância, passada em Ponta de Pedras, município do Arquipélago do Marajó, onde nasceu. “Cheguei a conviver como os índios, com os costumes deles. Os galhos, as cores e tudo o que eu queria como brinquedo, como barquinhos, eu retirava da natureza”, conta o ourives.? 

A consciência ecológica, formada ainda na infância, se reflete até na forma de coletar o material. Paulo nunca arranca galhos, frutos e folhas. “Sempre espero pelo processo de descarte natural, para que eu possa fazer a coleta. Com as cascas, também aguardo o período certo para a retirada. E quando recolho frutos ou sementes, deixo vários nos lugares onde caíram, para que possam continuar o ciclo da vida”, relata.

Já os primeiros contatos de Mônica Matos com a joalheria foram em 2003, quando trabalhou no setor de Curadoria do Programa Polo Joalheiro. Mas foi em 2007 que se interessou pelo setor como produtora de joias. Participou, em 2008, do 1º Workshop Internacional de Design e Ourivesaria, promovido pelo Igama, em parceria com o Sebrae-PA, e ministrado pelo designer e professor italiano Stefano Ricci. Mas foi na 3ª edição do workshop, em 2010, que ela teve a inspiração de usar os símbolos da Amazônia para criar a exposição. “O curso treinou o meu olhar para trabalhar estes signos”, ressalta a produtora.

Stefano Ricci, atualmente professor do Curso de Mestrado "Product Design for Rapid Manufacturing - Wearable Luxuries", da Universidade La Sapienza, de Roma (Itália), afirma que a coleção de joias “Digitais da Amazônia” tem o foco na iconografia da região. “Estou particularmente feliz por constatar na coleção a evolução do tema e da metodologia que eu introduzi. Mônica Matos, com a ajuda do sábio mestre ourives Paulo Tavares, soube infundir na matéria, que dá forma às joias, os valores intangíveis - em especial da poesia - o que torna a coleção elegante e atemporal, adaptada também ao público internacional”, declara Ricci.

A coleção, que já esteve exposta no Espaço São José Liberto, numa promoção do Igama, em parceria com o Governo do Pará, por meio da Secretaria de Estado de Indústria, Comércio e Mineração (Seicom), terá continuidade com outras peças, cujos embriões estão guardados na natureza, esperando apenas ser descobertos pela sensibilidade e criatividade de Paulo Tavares e Mônica Matos. 

TEXTO DE LUCIANE BARROS E SOCORRO COSTA: ASCOM/IGAMA



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